ALEXYA SALVADOR E A MATERNIDADE POR VOCAÇÃO

Alexya Salvador, professora e pastora da Igreja da Comunidade Metropolitana, nasceu e foi criada em Mairiporã, uma cidade da região metropolitana de São Paulo, mas que conserva traços de uma típica cidade interiorana. Em sua infância, ela não imaginava os rumos que sua vida tomaria no futuro, iniciando sua transição de gênero apenas mais tarde, com 28 anos. Dentre as inúmeras batalhas para se afirmar enquanto mulher numa sociedade que impõe uma série de padrões ao gênero feminino, Alexya também tinha o desejo de ser mãe, mas sabia que realizar esse sonho não seria fácil e exigiria dela novos enfrentamentos com o conservadorismo e preconceitos alheios. Inúmeras mães adotam os seus filhos, inúmeras mães não possuem útero, e muitas pessoas que não querem ser mães são obrigadas a gerar pela impossibilidade de fazer um aborto e abandonam a criança logo após o nascimento. Dizer que mães são apenas as pessoas que geram um novo ser, além de ser uma afirmação reducionista, também é preconceito. Se contrapondo a essa visão biologicista e capacitista, Alexya rebate: “Eu acho que maternidade não é uma condição da mulher em si, acho que a maternidade é uma escolha, é uma vocação, não é toda mulher que tem vocação para ser mãe como não é toda mulher que tem vocação para ser professora”. Eu fui criada para não ser mãe, a biologia disse que eu não seria mãe, a religião disse que eu não seria mãe, a minha família disse que eu não seria mãe e para todos esses elementos eu disse ‘Não, eu vou ser mãe sim!’ e hoje tem um papel que diz lá que eu sou a mãe da Ana Maria e que eu sou a mãe do Gabriel, eu sou mãe, por escolha.

Gestação Diferenciada

As mães que adotam seus filhos também passam por processos que se assemelham à espera e preparação do período de gestação de um bebê, segundo Alexya. No caso das mulheres trans, esses procedimentos são ainda mais angustiantes devido a todas as dificuldades burocráticas impostas aos LGBTs para realizar a adoção. Para ser habilitada no Cadastro Nacional de Adoção, Alexya conta que a psicóloga que a atendeu pediu que ela retornasse para uma segunda consulta e disse: “Eu preciso entender, porque tem 20 e poucos anos que eu entrevisto casais pretendentes à adoção e é a primeira vez que uma mulher trans senta na minha cadeira”. Perplexa com a incerteza da psicóloga, ela respondeu: “Doutora, o que você quer ouvir de mim? Eu já respondi tudo o que você me perguntou, eu quero ser mãe, eu quero ter o meu filho, eu quero formar a minha família, eu não tenho algo novo para te falar”. Apesar das exigências excepcionais, a pastora conseguiu sua permissão para adotar, passando para uma nova etapa de espera. Gabriel, o primeiro filho que adotou com Roberto, seu marido, veio de um abrigo de Mairiporã e seu processo de adoção demorou quase um ano. Sobre esse período, ela fala: “é uma gestação, porque você prepara o quarto, monta um enxoval, conta para as pessoas que está grávida. É uma gravidez, mas de repente uma gravidez não nos padrões que a cisgeneridade entende”.

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